Entenda a Letra: Conversando no Bar (Nas asas da Panair)

December 17, 2018

 

Fala galera,

 

Tudo bem com vocês? Eu espero que sim.

 

Rolou uma enquete no facebook sobre qual música vocês queriam uma análise aqui, a vencedora foi “Conversando no Bar” (Nas asas da Panair) de Milton Nascimento e Fernando Brant, famosa na voz de Elis Regina em 1974.

Essa canção veio bem a calhar, já que estamos em um eterno processo de esquecimento histórico. Como eu já disse e repito: No Brasil, museu pegando fogo não é acaso, é sintoma.

 

Sem mais delongas, vamos a música.

 

Precisamos entender três coisas.

 

Primeiro: A renúncia de Jânio Quadros e a posse de Jango

 

Jânio quadros foi eleito presidente do Brasil em 1960, ele foi um dos pioneiros nessa história de “marketing político”, ele andava com uma vassoura na campanha dizendo que iria varrer a corrupção e a bandalheira da política. Depois de 6 meses ele tentou dar um golpe (um golpe branco), vou explicar. Na época se votava para presidente e para vice, isso tornava possível que o candidato da chapa oposta fosse o vice, foi exatamente o que aconteceu, João Goulart (Jango) foi eleito o vice e para piorar, ele era taxado de comunista, injustamente (em um cenário de guerra fria, comunismo era um medo muito forte). Jânio mandou seu vice, Jango, em uma missão diplomática na China (China comunista) enquanto Jango estava lá, Jânio entregou uma carta de renúncia ao senado, alegando que o Brasil estava sob influências de “forças estranhas”. Na verdade a renúncia era um blefe, Jânio pensou que teria o apoio da sociedade (pois tinha acabado de ser eleito), o apoio do exército (pois os militares não iam deixar um “comunista” assumir) e ele voltaria a presidência com plenos poderes contra o congresso. A tentativa do golpe deu errada, ninguém deu a mínima para o teatro de Jânio. Não tinha mais presidente e o vice estava na China.

 

Segundo: Panair do Brasil

 

Até 1929 existiam duas companhias aérea operando no Brasil, Sindicato Condor e a Varig, foi então que a NYRBA veio compor esse time. Em 1930 a legislação brasileira só permitia competir em igualdade com as outras empresas se a NYRBA tivesse uma subsidiária nacional, foi então que criaram a NYRBA do Brasil. No mesmo ano a NYRBA do Brasil foi vendida para a Pan American, que mudou seu nome para Panair do Brasil.

Foi assim que surgiu uma das empresas mais queridas do Brasil. A característica mais marcante da Panair era o altíssimo padrão de serviço, para se ter noção da qualidade, isso virou uma figura de linguagem popular, quando uma coisa tinha um bom padrão de serviço, dizia-se que essa coisa tinha um “padrão panair” de atendimento.

 

Na concorrência interna com a Sindicato Condor, a Panair adentrou o interior do país, criando uma outra marca da empresa, o transporte de cargas para a região da Amazônia, que na época era isolada do resto do Brasil. Isso foi de muito avanço para a região que basicamente só tinha contato com o resto do país através da Panair.

 

Cada ano que passava a Panair continuava se expandindo, durante a segunda guerra mundial ela construiu e manteve os aeroportos de: São Luís, Fortaleza, Belém, Natal, Recife, Maceió e Salvador. Nessa época ela também assumiu algumas linhas da sua concorrente Sindicato Condor (futura Cruzeiro do Sul) que era subsidiária da empresa alemã Syndicato Condor, que por causa da guerra tinha dificuldades em receber peças da matriz.

 

A Panair também foi uma das primeiras empresas a ter voos regulares para Europa após a segunda guerra.

 

A partir de 1942, com a entrada do Brasil na segunda guerra mundial, começou um processo de nacionalização de setores estratégicos. A Sindicato Condor pertencia a uma empresa alemã (inimigos de guerra) e foi nacionalizada na “marra”, já a Panair do Brasil pertencia a PAN AM, uma empresa norte americana (EUA eram aliados na guerra) e precisaria ser negociada para nacionalização.

 

O presidente da Panair do Brasil, Paulo Sampaio, começou a desagradar os executivos da companhia, pois os americanos sentia que o presidente estava "pesando a mão" para que a empresa vira-se totalmente brasileira, isto juntamente com uma greve de pilotos que estourou na mesma época, culminou na demissão de Paulo da presidência da Panair do Brasil.

 

Então, o presidente da Varig; Ruben Berta começou a se aproximar de Paulo Sampaio incentivando que Paulo usasse sua influência com a PAN AM para que os Americanos vendesse de vez a Panair para brasileiros. Nesse momento um grupo de empresário (grande parte gaúchos) começam a comprar ações da Panair, eles chegam a deter 30% das ações. Ruben usava um discurso de combate ao imperialismo americano para convencer Paulo, porém, Ruben queria mesmo era que a Varig comprasse a Panair, mas a PAN AM jamais venderia diretamente para Ruben, pois a Varig era vista como uma concorrente pela PAN AM.

 

Muita gente já dava como certa a compra da Panair pela Varig, foi então que Paulo Sampaio buscou auxílio de outro grupo empresarial para efetuar a compra da empresa, os empresários Celso da Rocha Miranda e Mário Simonsen entraram na jogada e compraram 65% do controle acionário da empresa, eliminando totalmente a participação americana. Como a nacionalização do setor era uma demanda do governo (desde Getúlio Vargas), com a compra total, em 1961 a Panair recebeu concessão para operar serviços para Europa, sendo a única companhia brasileira a ter essa concessão.

 

Terceiro: Mário Wallace Simonsen

 

Um dos maiores e mais ricos empresários que o Brasil já teve. No seu extenso patrimônio incluía:

Companhia Eletromecânica CELMA (única empresa de manutenção de turbinas e aeronaves do Brasil na época), hoje é a empresa GE

 

Sirva-se (primeira rede de supermercados no Brasil

 

Banco Noroeste (foi comprado pelo Santander)

 

Biscoitos Aymoré (depois comprada pela Danone e hoje é Arcor)


Mas as principais empresas para continuar nossa narrativa são:

 

Rede Excelsior (maior emissora de tv do Brasil na época)

 

Panair do Brasil

 

Comal (maior empresa de processamento de café do Brasil)

 

Wasim (uma das exportadoras de café mais importantes do Brasil, com escritórios em 65 países)

 

Sabendo desses três pontos, vamos entender como eles estão ligados.

 

Quando Mário Simonsen comprou a Panair, os executivos da Varig ficaram contrariados, pois dava como certa a aquisição da empresa pela Varig.

 

Além de ser alvo de descontentamento dos empresários ligados a Varig, Simonsen também cultivava o desafeto do deputado Herbert Levy e do governador e deputado Carlos Lacerda, fundadores respectivamente dos jornais Gazeta Mercantil, Notícias Populares e Tribuna da Imprensa , mídias que apoiavam e trabalhavam para não deixar Jango voltar da China e tomar posse.

 

Então Simonsen tinha alguns desafetos de peso, empresários, donos de jornais e políticos, mas ainda faltava um inimigo para ele, os militares.

 

A bronca dos militares com Simonsen começa pela amizade do empresário com o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Os militares tentaram dar o golpe 10 anos antes de 1964, na época o golpe foi evitado pelo ministro da guerra Henrique Lott, que “na marra” garantiu a posse do então eleito JK e seu vice Jango (O vice taxado de comunista). Desde então os militares golpistas tinham JK e Jango atravessados na garganta. (esse episódio é conhecido como Contragolpe ou Golpe Preventivo do Marechal Lott)

 

Quando Simonsen soube da renúncia de Jânio, mandou um executivo da Panair interceptar Jango (que voltava da China) para avisá lo que o exército estava articulado para prendê-lo e evitar sua posse. Jango foi para Paris com esse executivo, hospedou-se em um hotel com todas as despesas pagas pela Panair, dos escritórios da empresa ligou para San Tiago Dantas (embaixador do Brasil na ONU) e JK, assim definiu sua volta para o Brasil pelo Rio Grande do Sul, onde o governador (e cunhado) Brizola já estava com um movimento mobilizado chamado “Legalidade Coordenada”, com o apoio do exército do estado. Porém, antes de pousar em Porto Alegre, Jango fez escala no Uruguai, lá, na embaixada Brasileira, teve um reunião com o deputado Tancredo Neves que o convenceu a aceitar tomar posse sob um regime parlamentarista.

 

Além de ajudar Jango a retornar da China e tomar posse, a TV Excelsior apoiava totalmente a legalidade e sempre se opôs ao regime militar. Esses fatores fizeram com que Simonsen entrasse no radar dos militares.

 

Assim que os militares assumiram o poder em 1964, o deputado Levy conseguiu instaurar na câmara a CPI da Comal, a empresa de café era a principal via financeira da fortuna de Simonsen. 25 dias após o golpe, o governo cancelou a licença da empresa para comercializar café, sem ter um único título protestado, repetindo: A COMAL NÃO TINHA NENHUMA DÍVIDA PROTESTADA!

 

O governo simplesmente ignorou os acordos assinados pela Comal com as autoridades monetárias e concluiu que a mesma tinha uma dívida de US$ 23 milhões com o Estado. Mesmo assim, Simonsen ofereceu seu vasto patrimônio como garantia para continuar operando, o Banco do Brasil era responsável pela execução da dívida, analisou a proposta e concordou, porém, repentinamente voltou atrás na aceitação. Isso acabou arruinando a empresa. O processo anos depois foi considerado “uma peça fantasiosa” pelo STF, mas a essa altura a empresa já tinha acabado, conseguiram assim sufocar uma das principais veias financeira de Simonsen, mas isso não deixou seus inimigos satisfeitos.

 

No dia 10 de fevereiro de 1965, sem mais nem menos o presidente marechal Castello Branco e o ministro da Aeronáutica brigadeiro Eduardo Gomes assinaram um despacho suspendendo todas as concessões de linhas aéreas para a Panair. Alegação era que a situação financeira da empresa estava irrecuperável, o que poderia afetar a segurança dos voos. O que também não fazia nenhum sentido, a Panair tinha uma estrutura de manutenção, proteção e segurança de voo inigualável. Era dona da Celma, a maior e mais avançada oficina de retífica de motores do hemisfério Sul, que atendia empresas nacionais, estrangeira e a força aérea brasileira. Além disso, a Panair tinha a mais extensa rede de estações meteorológicas e telecomunicações aeronáutica da América do Sul, ela atendia qualquer aeronave (civil ou militar) que estivesse no Atlântico Sul.

 

"No dia da cassação das linhas, a Celma e o Departamento de Comunicações foram ocupados por tropas armadas e forçados a permanecer operando, porque se os serviços fossem interrompidos toda aviação comercial pararia na América do Sul" palavras do próprio Sampaio.

 

A cassação foi tão arbitrária que existiam aviões embarcados e prontos para decolarem para Europa quando veio o despacho. O mais impressionante foi que não houve nenhum transtorno, os passageiros desembarcaram e a Varig já estava pronta para absorver todas as rotas internacionais da Panair.

 

A Panair pediu concordata no RJ para tentar preservar intacto o seu patrimônio, porém o juiz indeferiu o pedido sem nenhum argumento minimamente razoável, afinal de contas, todos os funcionários recebiam em dia, o patrimônio da empresa era superior às dívidas e para piorar, a patrimônio líquido era maior que as dívidas.

 

Um mês depois do fechamento da Panair o empresário Simonsen teve decretado o sequestro de todos os seus bens, cerca de 40 companhias com atividade em 53 países.

 

Simonsen morreu, depressivo em 65, em uma pequena cidade na Europa, assim um dos maiores empresários do Brasil foi varrido da história em uma das maiores conspirações do Brasil.

 

Mas não foi só a Simonsen que essa conspiração afetou. Apenas na Panair foram mais de 5 mil funcionários sem emprego, teve casos de suicídio por parte desses funcionários. A região da Amazônia ficou isolada novamente, pois só a Panair detinha o conhecimento de operação na região. O Brasil perdeu uma empresa protagonista mundial na aviação e no mercado de café (café representava ⅓ das exportações do país). Por último, o governo conseguiu acabar com a TV Excelsior, você já deve conhecer ela, pois lá nasceu os festivais onde surgiram os grandes nomes da música brasileira, mas isso é uma história para um outro vídeo.

 

Então, vamos a música.

Essa canção tem um tom saudosista, lembrando de tempos democrático e de grande desenvolvimento antes do golpe de 64.

 

Lá vinha o bonde no sobe-e-desce ladeira

E o motorneiro parava a orquestra um minuto

(o Brasil tinha uma linha considerável de bondes no governo Vargas, foram sucateados pelos militares com o precedente aberto pelo JK)


Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levei um susto imenso nas asas da Panair

(Campanha da Itália é o nome dado a missão que o exército brasileiro fez na segunda guerra mundial, depois da guerra a Panair absorveu alguns pilotos da aeronáutica brasileira, por isso essa referência entre o motorneiro e o piloto da Panair.)
 

Descobri que as coisas mudam
E que tudo é pequeno nas asas da Panair


E lá vai menino xingando padre e pedra
E lá vai menino lambendo podre delícia
E lá vai menino senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado, sem rancor
O medo em minha vida nasceu muito depois
Descobri que minha arma é
O que a memória guarda dos tempos da Panair

(Essa estrofe faz refere-se ao período mais repressivo da ditadura, entre 68 e 73)


Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere no coração
Nada de novo existe neste planeta
Que não se fale aqui na mesa do bar…

(Esse verso lamenta as perdas que o país e as pessoas sofreram no período de repressão)


E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta

Que no fundo do quintal morreu
Morria cada dia dos dias que eu vivi
Cerveja que tomo hoje é
Apenas em memória dos tempos da Panair
A primeira Coca-cola foi
Me lembro bem agora, nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi
Voando sobre o mundo nas asas da Panair

(Estrofe faz uma analogia entre a liberdade civil e os voos dos aviões, assim como acabaram com a Panair, acabaram com as liberdades do povo)


Em volta dessa mesa velhos e moços
Lembrando o que já foi
Em volta dessa mesa existem outras
Falando tão igual
Em volta dessas mesas existe a rua
Vivendo seu normal
Em volta dessa rua, uma cidade
Sonhando seus metais
Em volta da cidade…(lararara…)

 

O final é uma deixa bem interessante, o que fica em volta das cidades? os governos? As forças armadas? Os interesses internacionais?

 

Todos esses se encaixam para explicar o golpe civil/militar de 64.

E se você quer estampar essas e outras histórias no seu dia a dia, não se esqueça de visitar nossa loja, hoje vou deixar um cupom para esse lindo quadro: O Bêbado e a Equilibrista

Para acessar é só clicar na imagem ou aqui


 

 

 

Não se esqueçam de compartilhar e deixar o seu comentário

Um beijo e até a próxima

 

Tchau.

Please reload

Posts Recentes
Please reload